Por Carlos Calazans – Superintendente Regional do Trabalho e Emprego em Minas Gerais

 

28 de abril: dia mundial da saúde e segurança no trabalho. Por trás de cada numero uma vida.

 

Neste 28 de abril, Dia Mundial da Saúde e Segurança no Trabalho, o Brasil é chamado a refletir sobre uma realidade que ainda envergonha o país: milhares de trabalhadores e trabalhadoras continuam adoecendo, se acidentando e morrendo em razão do trabalho.

 

A data, também marcada pela memória das vítimas de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, precisa ser compreendida em sua verdadeira dimensão. Não se trata apenas de lembrar quem perdeu a vida. Trata-se de reafirmar um compromisso público, institucional e social com a prevenção, a fiscalização, o cumprimento da legislação trabalhista e a construção de ambientes laborais seguros e saudáveis.

 

Cada número registrado nas estatísticas representa uma história interrompida, uma família atingida, uma comunidade impactada e uma falha coletiva na proteção da vida. Quando um trabalhador se acidenta ou morre, não estamos diante de uma ocorrência isolada. Estamos diante de um alerta sobre as condições reais em que parte da população brasileira ainda trabalha.

 

Em 2025, o Brasil registrou 806.011 acidentes de trabalho. Isso significa uma média de aproximadamente 1,5 acidente por minuto. Em Minas Gerais, foram 79.143 acidentes, o equivalente a cerca de um acidente de trabalho a cada 6 minutos e 40 segundos.

Acidentes de trabalho no Brasil e em Minas Gerais

Os números de mortes são ainda mais graves. No país, 3.644 trabalhadores perderam a vida em decorrência de acidentes de trabalho em 2025 — quase 10 mortes por dia. Em Minas Gerais, foram 387 óbitos, mais de um trabalhador morto por dia.

 

Não é possível que, em 2026, em plena era das novas tecnologias, da ciência, da inteligência artificial e de tantos avanços produtivos, ainda convivamos com uma tragédia dessa dimensão. Uma parte dos trabalhadores e trabalhadoras sai de casa para garantir o sustento de suas famílias e não retorna. Isso nos entristece, nos choca e nos impõe o dever de agir.

 

A taxa de letalidade também exige atenção. No Brasil, ela foi de 0,45%. Em Minas Gerais, chegou a 0,49%, índice superior à média nacional. Esse dado indica que, proporcionalmente, os acidentes registrados no estado tiveram maior gravidade em relação ao conjunto do país.

 

Setores com maior incidência de acidentes

 

Alguns setores produtivos merecem atenção especial. Na construção civil, Minas Gerais registrou 1.021 acidentes, com três óbitos. Na atividade relacionada ao café, foram 265 acidentes, sem registro de mortes. Na fundição de ferro e aço, ocorreram 297 acidentes, com um óbito. Já na extração de minério de ferro, foram 282 acidentes, com duas mortes. No beneficiamento de minério de ferro, foram registrados 14 acidentes, sem óbitos.

 

Esses dados não podem ser vistos como consequência inevitável da atividade econômica. Acidente de trabalho não é fatalidade quando poderia ter sido prevenido. Não é acaso quando há descumprimento de normas, ausência de equipamentos adequados, jornadas exaustivas, terceirizações mal acompanhadas, ambientes inseguros ou negligência com a saúde física e mental dos trabalhadores.

A importância da prevenção e fiscalização

A prevenção precisa ocupar o centro das relações de trabalho. Isso significa fortalecer a fiscalização, garantir o cumprimento das Normas Regulamentadoras, investir em formação, aprimorar os mecanismos de denúncia, valorizar as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes e de Assédio, dialogar com sindicatos e responsabilizar quem coloca vidas em risco.

 

Também é preciso compreender que saúde e segurança no trabalho não são entraves ao desenvolvimento. Ao contrário: são condições básicas para uma economia séria, produtiva e socialmente responsável. Nenhum modelo de crescimento pode ser considerado moderno se depende da exposição cotidiana de trabalhadores a riscos evitáveis.

 

Em Minas Gerais, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego tem atuado de forma permanente para enfrentar essa realidade. A fiscalização do trabalho, a mediação, o diálogo social e a orientação aos trabalhadores e empregadores são instrumentos essenciais para construir ambientes laborais mais seguros e relações de trabalho mais equilibradas.

Segurança no trabalho como pilar do desenvolvimento

Mas essa não é uma tarefa de um único órgão. A prevenção de acidentes é uma responsabilidade compartilhada entre Estado, empregadores, trabalhadores, entidades sindicais e toda a sociedade. O poder público deve fiscalizar e orientar. As empresas devem cumprir a legislação e adotar medidas efetivas de proteção. Os trabalhadores precisam ter acesso à informação, canais de denúncia e condições reais de participação. Os sindicatos cumprem papel fundamental na defesa coletiva da saúde e da vida.

 

Neste 28 de abril, mais do que lembrar as vítimas, reafirmamos um compromisso: seguir atuando de forma firme, permanente e ininterrupta para reduzir esses números. Cada acidente evitado significa uma família preservada. Cada vida protegida é uma vitória da sociedade. O trabalho digno pressupõe respeito à legislação, ambientes seguros e valorização da vida acima de qualquer lógica produtiva. Não há desenvolvimento verdadeiro onde o trabalhador adoece, se acidenta ou morre para produzir riqueza. A memória das vítimas exige de nós mais do que silêncio. Exige ação.