Todo condomínio tem regras. Mas nenhum condomínio é feito de regras.
É feito de pessoas.
E talvez um dos maiores erros de quem administra condomínios seja acreditar que um bom regulamento interno é aquele que consegue prever, controlar e proibir absolutamente tudo.
Não consegue. E nem deveria.
Ao longo dos anos, administrando condomínios com perfis completamente diferentes, aprendi que dois prédios localizados na mesma rua podem ter culturas absolutamente distintas.
Um condomínio com centenas de apartamentos compactos, moradores jovens, alta rotatividade e muitos animais de estimação possui uma dinâmica.
Um empreendimento de alto padrão, com poucas unidades e famílias residentes há muitos anos, possui outra.
Um condomínio-clube com piscinas, quadras, churrasqueiras, coworking e espaços de convivência não pode ser administrado com a mesma lógica de um edifício onde praticamente não existem áreas comuns.
Parece óbvio. Na prática, nem sempre é.
Existe uma tentação perigosa na vida condominial: transformar preferências pessoais em regras coletivas.
“Eu não gosto de cachorro na área comum.”. Proíbe.
“Eu não gosto de criança brincando naquele espaço.”. Proíbe.
“Eu acho feio.”. Proíbe.
“Eu não utilizo.”. Fecha.
“Na minha opinião deveria ser diferente.”. Regulamenta.
E, aos poucos, aquilo que deveria organizar a convivência começa a sufocá-la.
Regulamento interno do condomínio deve refletir a realidade dos moradores
Regulamento interno não deveria ser uma coleção de incômodos pessoais transformados em artigos, incisos e multas.
Deveria ser um retrato organizado da forma como aquela comunidade escolheu viver.
Regras do condomínio precisam ter propósito
Existe uma diferença enorme entre estabelecer limites e simplesmente proibir.
Limites protegem a coletividade.
Proibições sem propósito apenas transferem a preferência de alguns para a vida de todos.
É claro que viver em condomínio exige renúncias. Segurança, sossego, salubridade, preservação patrimonial e respeito ao próximo não são negociáveis. Convenção, regulamento, legislação e decisões de assembleia precisam ser respeitadas.
Mas respeitar regras não significa acreditar que elas são eternas.
Condomínios mudam. As pessoas mudam. A sociedade muda.
Há alguns anos, praticamente ninguém discutia carregadores para veículos elétricos. Espaços para delivery não faziam parte dos projetos. Coworking dentro de condomínio parecia desnecessário. O número de animais de estimação era diferente. Locação por plataformas digitais não tinha a dimensão atual.
A realidade chegou antes de muitos regulamentos. E continuará chegando.
É por isso que uma das missões de um síndico não é engessar o condomínio.
É compreender o condomínio.
Como construir regras que façam sentido para o condomínio
Antes de propor uma regra, talvez devêssemos fazer uma pergunta muito simples:
Que problema estamos tentando resolver?
Se não existe uma resposta objetiva, talvez estejamos criando uma regra para resolver apenas o desconforto de alguém. E isso é perigoso.
Já vi discussões intermináveis para restringir comportamentos absolutamente compatíveis com o perfil do empreendimento simplesmente porque um pequeno grupo não participava daquela realidade.
Também já vi o contrário: condomínios que demoraram demais para estabelecer limites e permitiram que a liberdade de alguns prejudicasse a tranquilidade de muitos.
Nenhum dos extremos funciona.
Administrar bem está justamente no equilíbrio.
O síndico precisa conhecer a legislação e os documentos do condomínio, mas também precisa caminhar pelas áreas comuns, conversar com moradores, observar comportamentos, compreender faixas etárias, hábitos, horários e necessidades.
Planilhas mostram despesas. Regulamentos mostram regras.
Mas é convivendo que descobrimos a cultura de um condomínio.
E existe outro ponto importante.
Quem compra ou aluga uma unidade também escolhe, em alguma medida, um estilo de vida.
Quem decide morar em um condomínio-clube precisa compreender que haverá crianças, festas, piscinas e circulação nas áreas de lazer.
Quem escolhe um empreendimento pet friendly encontrará animais.
Quem mora em um edifício predominantemente familiar encontrará uma dinâmica diferente daquele voltado para jovens profissionais.
Naturalmente, ninguém perde seus direitos por não se identificar com o perfil predominante.
Mas também não parece razoável tentar transformar toda uma comunidade para adequá-la exclusivamente às próprias preferências.
Conviver exige tolerância dos dois lados.
Talvez por isso eu acredite que os melhores regulamentos internos não sejam necessariamente os maiores.
São os que fazem sentido.
Regras precisam ter finalidade, proporcionalidade e capacidade de serem cumpridas.
Precisam proteger sem sufocar. Organizar sem infantilizar.
Limitar quando necessário, sem transformar a exceção em proibição geral.
E precisam ser revisitadas quando a realidade demonstrar que deixaram de funcionar.
Um condomínio saudável não é aquele onde tudo é permitido.
Também não é aquele onde tudo é proibido.
É aquele onde as pessoas entendem os limites e, principalmente, compreendem por que eles existem.
No final, a regra deveria servir à convivência. Nunca o contrário.
Porque podemos escrever centenas de páginas de regulamento.
Mas nenhuma delas será capaz de substituir bom senso, respeito e a compreensão de quem realmente vive naquele condomínio.
Até a próxima.




