Por Cecília Lima

A explosão dos aplicativos de delivery mudou profundamente a rotina dos condomínios brasileiros. Pedidos de refeições, medicamentos, supermercados, farmácias e compras online chegam diariamente às portarias, exigindo que síndicos e administradoras revisem seus protocolos de segurança.

Entretanto, uma dúvida ainda provoca discussões entre moradores: o porteiro pode levar o delivery até a porta do apartamento?

A resposta, sob o ponto de vista da boa gestão condominial, é simples: não é essa a função do porteiro. Além de comprometer a segurança do condomínio, essa prática pode desviar o profissional de suas atribuições e gerar riscos operacionais.

O aumento do delivery exige novas regras

Nos últimos anos, os serviços de entrega passaram a fazer parte da rotina dos brasileiros. Em muitos condomínios, dezenas ou até centenas de entregas são realizadas diariamente.

Esse novo cenário exige que os condomínios adaptem seus procedimentos sem abrir mão da segurança. O modelo mais adotado consiste em impedir que entregadores circulem livremente pelas áreas comuns. Assim, quando uma encomenda chega, o porteiro apenas comunica o morador, que deve comparecer à portaria para retirar o pedido.

Essa medida reduz a circulação de pessoas estranhas no edifício e dificulta situações que possam colocar em risco moradores, funcionários e patrimônio.

Porteiro não deve abandonar seu posto

Apesar disso, ainda é comum que alguns moradores solicitem que o próprio porteiro leve o pedido até o apartamento ou o coloque no elevador.

Embora o pedido possa parecer simples, ele cria um problema importante.

Enquanto realiza a entrega, o porteiro deixa a portaria sem supervisão. Nesse intervalo, visitantes podem chegar, veículos entram e saem da garagem, prestadores de serviço acessam o condomínio e diversas ocorrências podem acontecer sem o devido controle.

Em outras palavras, o funcionário deixa de exercer justamente sua principal responsabilidade: controlar o acesso ao condomínio.

Além disso, a repetição dessa prática pode comprometer significativamente a rotina operacional da portaria, principalmente em condomínios de grande porte, onde o fluxo de entregas é intenso durante todo o dia.

A função do porteiro é definida pelas suas atribuições

O porteiro é contratado para executar atividades relacionadas ao controle de acesso, atendimento aos moradores, identificação de visitantes, monitoramento da entrada e saída de pessoas e apoio aos procedimentos de segurança do condomínio.

Realizar entregas particulares aos apartamentos não integra suas atribuições habituais.

Quando assume essa tarefa, o profissional deixa de atender outras demandas igualmente importantes, aumentando a possibilidade de falhas na vigilância.

Da mesma forma, também não cabe ao porteiro guardar encomendas pessoais por longos períodos, salvo quando o condomínio possuir procedimento específico para isso, aprovado pela administração e previsto em seu regulamento interno.

O que dizem as boas práticas de gestão condominial

Embora a legislação brasileira não traga uma norma específica proibindo o porteiro de entregar encomendas nos apartamentos, especialistas em segurança condominial recomendam que cada condomínio estabeleça regras claras sobre o recebimento de deliveries.

O ideal é que essas normas estejam previstas no Regimento Interno ou em comunicados oficiais da administração, garantindo tratamento igual para todos os moradores.

Entre as práticas mais adotadas estão:

o entregador permanece na portaria ou em área previamente definida;
o porteiro comunica imediatamente a chegada do pedido;
o morador desce para retirar sua encomenda;
pessoas previamente autorizadas pelo condômino também podem realizar a retirada;
quando houver espaço apropriado, o condomínio pode disponibilizar armários inteligentes, lockers ou área específica para armazenamento temporário das entregas.

Essas medidas preservam a segurança sem prejudicar a comodidade dos moradores.

Condomínio de Recife precisou aplicar multas

A bancária Patrícia Aranha, síndica de um condomínio residencial em Recife, enfrentou esse problema em 2021. Segundo ela, alguns moradores passaram a pressionar os porteiros para que levassem os pedidos até os apartamentos.

Diante da insistência, o condomínio precisou aplicar multas aos moradores que descumpriam as regras internas.

“Identificamos as pessoas que estavam coagindo os porteiros, e esses também foram chamados à atenção. O morador tem que entender que o porteiro é um funcionário do condomínio e não de particulares. Não é atribuição dele estar saindo do seu posto de trabalho para fazer entrega em domicílio”, afirmou.

A síndica também destacou que a retirada das encomendas ocorre exclusivamente na portaria ou no local definido pelo condomínio.

Segundo ela, a obrigação do porteiro limita-se a interfonar e comunicar a chegada do pedido. Depois disso, cabe ao morador buscar sua entrega.

No condomínio administrado por Patrícia, existe ainda uma mesa no hall destinada às encomendas, permitindo que cada morador retire seu pedido sem necessidade de intervenção do funcionário.

Tecnologia pode reduzir conflitos

A modernização dos condomínios também tem contribuído para minimizar esse tipo de discussão.

Hoje, muitos empreendimentos utilizam aplicativos de gestão condominial que notificam automaticamente o morador quando uma encomenda chega. Outros investem em lockers inteligentes, que armazenam as entregas com segurança até a retirada pelo destinatário.

Essas soluções reduzem o trabalho da portaria, evitam filas, aumentam a rastreabilidade das entregas e preservam a função do porteiro.

Segurança é responsabilidade de todos

O recebimento de deliveries é uma realidade sem volta. No entanto, a conveniência não deve se sobrepor à segurança coletiva.

Quando cada morador respeita os procedimentos estabelecidos pelo condomínio, contribui para um ambiente mais organizado e protegido.

O porteiro desempenha uma função estratégica na segurança patrimonial e no controle de acesso. Transformá-lo em entregador particular não apenas desvia suas responsabilidades, como também pode criar vulnerabilidades que colocam em risco todo o condomínio.

Por isso, cabe ao síndico estabelecer regras transparentes, divulgá-las amplamente e garantir seu cumprimento, sempre buscando equilibrar praticidade, respeito aos funcionários e proteção de todos os moradores.