Corrupção em condomínios e conflitos de interesse nas contratações acendem um alerta para o mercado condominial: quando interesses particulares se sobrepõem ao dever de administrar, quem paga a conta é sempre a coletividade.
Por Vanessa Munis
Tenho acompanhado, com profunda preocupação, os acontecimentos envolvendo o Banco Master e as investigações que trouxeram à discussão pública questões relacionadas a poder, influência, governança e suspeitas de vantagens indevidas. A ética na gestão condominial deve ser um princípio inegociável, independentemente do tamanho do patrimônio administrado ou dos interesses envolvidos nas contratações.
Guardadas as devidas proporções, não consigo deixar de fazer um paralelo com determinadas práticas que também merecem atenção no mercado condominial. Um universo no qual encontramos situações em que algumas pessoas parecem confundir a responsabilidade de administrar o patrimônio alheio com a oportunidade de construir benefícios particulares.
E faço uma pergunta que considero indispensável: em que momento alguns síndicos passaram a acreditar que os condomínios lhes pertencem?
Ser síndico não significa ser dono. Significa assumir uma responsabilidade que exige caráter, transparência, competência e, acima de tudo, respeito à confiança depositada pelos condôminos.
Corrupção em condomínios: quando interesses particulares prevalecem
O que temos observado em determinadas relações comerciais é preocupante. Contratações que deveriam considerar a qualidade dos serviços, a capacidade técnica, a idoneidade das empresas e a melhor relação entre custo e benefício acabam, em alguns casos, condicionadas a interesses que nada têm a ver com as necessidades dos moradores.
E aqui quero chamar a atenção para outra situação igualmente grave: o desrespeito aos prestadores de serviços.
Existem empresários que dedicaram uma vida inteira à construção de seus negócios, que empregam famílias, cumprem suas obrigações e procuram trabalhar com dignidade, mas que se deparam com exigências de pagamentos indevidos para conquistar ou manter contratos.
São comissões disfarçadas, vantagens pessoais, benefícios ocultos e toda sorte de mecanismos utilizados para transformar aquilo que deveria ser uma relação profissional em uma negociação de interesses particulares.
Desde quando uma empresa precisa pagar para ter o direito de trabalhar?
E mais: quando um prestador de serviços se vê pressionado a alimentar esse sistema para sobreviver, precisamos compreender que não estamos diante de uma simples distorção comercial. Estamos diante de um problema ético que compromete toda a cadeia condominial.
Isso não significa retirar a responsabilidade de quem aceita participar dessas práticas. Significa reconhecer que também existem empresas submetidas a pressões abusivas, muitas vezes receosas de denunciar e perder seu espaço no mercado.
Como a corrupção prejudica os condomínios e os fornecedores
O resultado é perverso. O condomínio pode pagar mais caro, receber serviços inferiores e perder a oportunidade de contratar profissionais verdadeiramente qualificados.
A falta de ética na gestão condominial também afeta a credibilidade do mercado, pois cria um ambiente de insegurança para empresas sérias e compromete a confiança necessária às relações comerciais.
Além do prejuízo financeiro, essas práticas comprometem a transparência das contratações, enfraquecem a confiança entre síndicos, conselhos, moradores e fornecedores e colocam em risco a qualidade da gestão condominial.
Não podemos admitir que a corrupção seja tratada como uma prática natural do mercado. Tampouco podemos aceitar que o silêncio se transforme em uma espécie de autorização coletiva para que tudo continue acontecendo.
Faço questão de reconhecer que existem síndicos extraordinários, profissionais honestos e empresas comprometidas com a excelência. São essas pessoas que merecem visibilidade e respeito, e não aquelas que transformam a confiança em mercadoria.
O que o caso Banco Master ensina sobre governança e fiscalização
O caso Banco Master, cujos fatos e responsabilidades seguem sendo apurados pelas autoridades, deve nos provocar uma reflexão que ultrapasse o sistema financeiro: o que acontece quando faltam limites, fiscalização e compromisso com o interesse daqueles que confiaram seus recursos a terceiros?
Precisamos fortalecer uma cultura na qual os condôminos acompanhem a gestão, questionem contratações, exijam transparência e compreendam que o patrimônio coletivo jamais poderá servir de instrumento para o enriquecimento particular de quem o administra.
A governança condominial exige processos claros, fiscalização efetiva, critérios objetivos para a escolha de fornecedores e prestação de contas transparente. O conselho tem papel importante nesse acompanhamento, assim como os moradores precisam exercer seu direito de fiscalizar a administração. O artigo 1.348 do Código Civil estabelece as atribuições do síndico, incluindo o dever de diligenciar a conservação e a guarda das partes comuns e prestar contas à assembleia.
Ética na gestão condominial não pode ser negociável
Porque a corrupção nem sempre começa com grandes cifras. Muitas vezes, começa com um pequeno favor, uma vantagem aparentemente inofensiva e a conveniente decisão de olhar para o outro lado.
Há algo que defendo e continuarei defendendo enquanto tiver voz neste mercado: reputação não se compra, dignidade não se negocia e caráter não pode ser uma condição variável de acordo com o valor do contrato. A ética na gestão condominial não deve depender de conveniências ou interesses individuais, mas orientar todas as decisões que envolvem o patrimônio coletivo.
O condomínio pertence aos condôminos. A gestão deve servir à coletividade. E o trabalho honesto precisa voltar a ser respeitado como um valor inegociável.
Afinal, não é o tamanho do patrimônio que revela a grandeza de uma pessoa. É aquilo que ela faz quando tem nas mãos o poder de decidir sobre o que não lhe pertence.
Vanessa Munis – Advogada há mais de 22 anos, síndica desde 2012, palestrante, autora e apresentadora. Especialista em Direito Condominial, gestão estratégica, liderança, comportamento humano e resolução de conflitos. É membro da Comissão de Advocacia Condominial da OAB/SP, coordenadora de grupo de trabalho sobre violência doméstica, membro do SECOVI-SP – SindExpert e da ANACON. Possui pós-graduação em Direito Tributário e de gestão de pessoas, psicologia positiva, comportamento humano e constelações sistêmicas. Apresenta o programa Opinião Sem Muros, na CONDTV, e é autora das obras “A Arte de Se Posicionar no Ecossistema Condominial” e “Onde o Caráter se Revela”. contato@vanessamunis.com.br




