A transformação digital facilitou a administração dos condomínios, mas também ampliou a atuação de criminosos especializados em fraudes eletrônicas. Boletos falsificados, invasão de contas de e-mail, adulteração de dados bancários, perfis falsos em aplicativos de mensagens e golpes envolvendo transferências via PIX passaram a fazer parte da rotina de síndicos e administradoras em todo o país.

Diante desse cenário dos golpes digitais, a adoção de procedimentos de segurança e a conscientização das equipes tornaram-se fundamentais para reduzir os riscos financeiros. Os golpes costumam explorar falhas simples do dia a dia. Criminosos interceptam mensagens eletrônicas, enviam boletos com códigos de barras adulterados, simulam comunicados oficiais da administradora ou se passam por fornecedores para solicitar alteração de dados bancários. Basta um único pagamento realizado sem conferência para um prejuízo significativo ao condomínio.

O síndico profissional Marcelo Ribeiro vivenciou essa situação quando um fornecedor informou que não havia recebido o pagamento de um serviço. A investigação revelou que um e-mail falso, praticamente idêntico ao da empresa, havia informado uma suposta mudança da conta bancária, direcionando o pagamento aos golpistas.

“O prejuízo só não foi maior porque identificamos rapidamente a fraude e conseguimos bloquear parte da movimentação. Desde então, nenhuma alteração bancária é aceita apenas por e-mail. Toda solicitação é confirmada por telefone com um contato previamente cadastrado”, relata Marcelo.

Ele também implantou um novo procedimento: “Hoje nenhuma transferência relevante é autorizada por apenas uma pessoa. Sempre existe uma segunda validação antes da liberação dos recursos.”

Os moradores também podem contribuir, verificando o beneficiário dos boletos, confirmando o banco emissor e priorizando documentos emitidos pelos canais oficiais da administradora.

Para Fernanda Oliveira, gerente de uma seguradora especializada em riscos patrimoniais e financeiros, a engenharia social continua sendo a principal estratégia dos criminosos. “Eles exploram distração, urgência e excesso de confiança para convencer funcionários e gestores a realizar pagamentos ou fornecer informações sensíveis. Por isso, protocolos claros e treinamento periódico são tão importantes quanto investir em tecnologia.”

Ela lembra que diversas apólices já oferecem cobertura para crimes cibernéticos, mas a indenização normalmente depende da comprovação de que o condomínio adotava controles internos, autenticação de acessos, registros das operações e processos de validação antes dos pagamentos.

Entre as recomendações dos especialistas estão restringir o acesso às contas bancárias, utilizar autenticação em dois fatores, manter senhas fortes e sistemas atualizados, além de formalizar procedimentos para contratação de fornecedores e alteração de dados cadastrais, evitando decisões baseadas apenas em e-mails ou aplicativos.

O avanço da Inteligência Artificial tornou o cenário ainda mais desafiador, com ferramentas capazes de reproduzir vozes, criar mensagens convincentes e falsificar documentos, reforçando a necessidade de conferência rigorosa antes de qualquer operação financeira.

Para Marcelo, a principal lição foi compreender que a segurança digital passou a integrar a própria gestão condominial. “Criar procedimentos de conferência pode dar um pouco mais de trabalho, mas custa muito menos do que enfrentar um prejuízo causado por uma fraude.”