Por Lúcio de Queiroz Delfino

Com índices recordes de atrasos em 2025 e 2026, uso de inteligência patrimonial permite localizar bens de condôminos que ocultam patrimônio para não pagar dívidas.

A inadimplência condominial no Brasil atingiu patamares críticos, fechando o último ano com picos históricos próximos a 12%. O cenário em 2026 permanece desafiador, com projeções indicando que a taxa de atrasos deve se manter elevada, ao redor de 11%, pressionada pelo alto custo de vida e pelo endividamento das famílias. Para síndicos e administradoras, esse cenário compromete o fluxo financeiro, dificulta o pagamento de fornecedores e penaliza os moradores que mantêm suas obrigações em dia.

O problema se agrava quando o devedor mantém um padrão de vida estável, mas, nos registros oficiais, não possui bens em seu nome. Quando há o reconhecimento do direito pela Justiça, mas não a efetiva recuperação do crédito devido à invisibilidade patrimonial.

O obstáculo da ocultação de bens

Diante da alta nas cotas condominiais, que superou a inflação recente, muitos gestores veem suas tentativas de cobrança encerrarem após buscas frustradas por meio de sistemas tradicionais, como o SisbaJud (contas bancárias), o Renajud (veículos) e o Infojud (dados fiscais). No entanto, a ausência de bens localizados raramente significa inexistência de patrimônio.

As táticas de blindagem evoluíram. Não é raro encontrarmos devedores que usufruem das áreas comuns, mas utilizam estruturas societárias complexas ou terceiros para afastar o patrimônio do próprio CPF. O crédito existe, mas permanece invisível aos mecanismos convencionais.

SNIPER e a investigação de criptoativos

Para enfrentar esse cenário de alta inadimplência, o Judiciário brasileiro passou a adotar o SNIPER, uma ferramenta de inteligência patrimonial que permite identificar participações societárias, vínculos indiretos e bens de alto valor, como aeronaves e embarcações.

O avanço também alcança o ambiente digital. A atuação judicial já inclui medidas voltadas à localização e eventual constrição de criptoativos, como Bitcoin, Ethereum e stablecoins (como o Tether). Esses ativos têm sido utilizados em estratégias de ocultação, especialmente fora dos mecanismos tradicionais de rastreamento financeiro.

A busca alcança também as exchanges, corretoras responsáveis pela custódia desses ativos. Hoje, o rastreamento técnico permite identificar valores mantidos em plataformas digitais e viabilizar a conversão desses ativos para a satisfação da dívida. A tecnologia oferece o mapa, mas é a estratégia jurídica que efetivamente transforma essas informações em recuperação de crédito.

Impacto em operações de larga escala

A eficácia dessas metodologias sustenta modelos de negócio voltados à previsibilidade financeira, como o mercado de garantidoras de receita, essencial em regiões onde os índices de atraso superam a média nacional. O uso de inteligência de dados passou a ser central para evitar que a inadimplência comprometa a gestão.

Na atuação junto à LLZ Garantidora, aplicamos esse rastreamento com alto grau de precisão para viabilizar a recuperação de créditos em operações de maior complexidade. Em estruturas de larga escala, essa capacidade é o que permite manter a saúde financeira para administradoras e moradores atendidos por esse modelo.

Respaldo jurídico e agilidade em 2026

O uso dessas ferramentas ganhou respaldo no Superior Tribunal de Justiça. Neste início de 2026, o entendimento da Corte se consolidou no sentido de que a utilização de sistemas como o SNIPER não configura quebra de sigilo bancário, o que reduz entraves processuais.

Essa segurança jurídica reduz o tempo de tramitação e o risco de dilapidação patrimonial pelo devedor. Ao unir inteligência de dados e agilidade, a inadimplência deixa de ser um prejuízo inevitável e passa a ser uma variável controlável na gestão condominial.
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* (OAB/MG 111.564) Especialista em Direito Condominial e Recuperação de Crédito. Sócio do escritório Delfino e Sardinha Advogados Associados.