02Espero que todos estejam bem.

Março chega com o tradicional ritual da vida condominial e, para o síndico, quase uma experiência transcendental.

As assembleias começam bem antes, com estudo intenso de números, planilhas e reuniões com administradora e corpo diretivo. Na prestação de contas, a análise é minuciosa, mês a mês, para evitar debates intermináveis. Não à toa, nunca se vê tantos “contadores” reunidos quanto nesse momento.

E é aí que surgem as participações memoráveis. O morador que nunca olhou a prestação de contas durante o ano inteiro decide tirar todas as dúvidas ao vivo:

— “Deveriam trazer o relatório com letra maior e mais detalhado.”

O síndico responde, com calma:

— “A prestação ficou disponível todo esse tempo.”

— “Não, senhor, eu não tenho acesso ao aplicativo.”

— “Verificamos aqui e o senhor acessou o aplicativo o ano todo.”

— “Também vimos que o senhor abriu a pasta todos os meses.”

— “A letra era pequena. E eu gosto da pasta física, de olhar papel. Recomendo a reprovação das contas.”

Nesse momento, entra a administradora:

— “A auditoria recomendou a aprovação.”

Mas o morador não se dá por vencido:

— “Quem escolheu essa auditoria? A administradora ou o síndico?”

— “Foi feita concorrência com empresas do mercado.”

— “Não houve participação dos moradores.”

— “Foi aprovada em assembleia.”

— “Não pude comparecer. Reprovo as contas. Próximo!”

E chega o momento mais aguardado: a eleição.

O condomínio se transforma. Não chega a ser guerra, é pior. Eleição para presidente de mesa. O silêncio é absoluto. Surgem tantas procurações que nem o Cartório da Sé registrou em um ano inteiro.

Lembra daquela multa aplicada em um morador? Pode ter certeza: ele estará presente, pronto para “prestigiar” sua tentativa de reeleição.

Na apresentação do relatório de gestão, alguém interrompe:

— “Síndico, pode acelerar? Está ficando tarde e temos outros itens.”

Logo aparece também aquele que tem certeza de que você nunca fez nada.

— “Esse síndico é ausente. Mandei e-mail e mensagem e nunca respondeu.”

O síndico, preparado, rebate:

— “Tenho aqui todas as mensagens. Respondi todas.”

— “Respondeu, mas não resolveu. Então não respondeu.”

E, claro, o mesmo morador levanta a mão:

— “Eu me candidato.” Próximo.

Quando surgem editais para contratação de síndicos profissionais, o nível de exigência atinge outro patamar: habilitação para carreta e carrinho de golfe, formação em Harvard e na USP (com intervalo estratégico de cinco anos entre uma e outra), MBA em física quântica e geração de IA condominial, além de atestado de antecedentes emitido pelas últimas sogras.

O exagero faz parte da vida condominial, cada vez mais.

No fim, resta a reflexão: que cada um saiba desempenhar bem o seu papel na vida em condomínio.

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